A lavagem das escadarias da igreja

Dia 24 de junho de 2017, aconteceu um ato histórico que foi a retomada da manifestação de um povo muito oprimido e sofrido, mas que reagiu com um ato simbólico pela paz, e pela perpetuação da verdadeira história daqueles que construirão a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, que eram a padroeira dos escravos, e historicamente os frequentadores na sua maioria eram formados pelos negros e parcela da população pobre e marginalizada de Cuiabá.


Esse manifesto da Paz, agora assumida pela geração originária dos antepassados dos negros escravos que construíram a Igreja do Rosário e a Capela de São Benedito no século XVIII, e que guarda a história da forte devoção e da fé do povo cuiabano.


Muitos sem conhecer a verdadeira história da existência da Igreja do Rosário e da Capela de São Benedito, tentam ser o dono das memórias materiais e espirituais, e por isso gerou uma pequena confusão entre alguns segmentos, que hoje dominam a direção da Igreja e da capela, tentando fechar as portas aos outros segmentos, principalmente para aqueles que pensam e tem a possibilidade de manifestações culturais diferentes aos ritos deles, mas saibam que a “Lavagem das Escadaria da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e Capela de São Benedito”, são reproduções de manifestações dos momentos de oração e prece no local, que serviam como alívio momentâneo para a vida de sofrimento que os negros escravos e a população marginalizada de Cuiabá vivam.


Os primeiros tijolos da construção da Igreja, não começou agora, teve seu início em 1722, e sua inauguração aconteceu 5 anos depois, e seus verdadeiros construtores eram compostos por escravos negros forros e escravos libertos, e esse construtores eram reconhecidos como: “Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Cuiabá”.


Vejam que em 2022 Cuiabá estará comemorado 300 anos do início da construção da igreja, por isso, é necessário que a Igreja esteja aberta a todas as manifestações culturais, e que todos saibam, que cada geração está a participar das reformas, mas a verdadeira construção começou lá atrás, com a Taipa de Pilão Socada, e que tinha como material, os barros mexidos e com a mistura das fezes e sangue de animais, (não haviam tijolos e cimento na época). E, que transformou em um dos marcos de sua fundação, constituída em forma de um prédio simples, de adobe, taipa, típica do período colonial.


A igreja foi tombada como patrimônio, restaurada e encontra-se em boas condições pelas contribuições dos devotos e fies, e anualmente é realizada a tradicional Festa de São Benedito, e que faz parte do calendário cultural e da gastronomia regional e atrai milhares de fiéis.


Enfim, a Lavagem das Escadarias da Igreja do Rosário e de São Benedito, foi realizada por representantes de religiões afro-brasileiras, e provocou alguns incômodos e reações contrárias de algumas pessoas que não conhece a história da primeira comunidade religiosa que era a “ Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Cuiabá”, e que hoje, seus descendentes estão a reviver a história, e realizaram essa manifestação emocionante com a simbolização da lavagem da escadaria, que foi um ato de propagação da paz entre os povos, que estará sendo realizada anualmente, e que fará parte do calendário cultural e religioso de Cuiabá na festa dos 300 anos da cidade.


Foi um ato emocionante, trazidos como forma de homenagem aos antepassados construtores da Igreja, com as matrizes de rituais africanos que propagaram no ar do Alto do Rosário o cheiro de alfazema, distribuindo flores e águas, que constituíram o manifesto festivo da Lavagem das Escadaria, simbolizaram o pedido de paz, de alegria e de fraternidade entre os povos, e na fé africana foi repartido a todos os presentes a benção de São Benedito e dos Orixás, todos os que assistiram, viveram momentos emocionantes ao ver uma onda dos muitos simpatizantes vestidos de branco, entoando cantos e hinos religiosos, ao som dos tambores e atabaques.


Foi um ato aberto a todos, livre e de solidariedade pela paz, e quando se abre o coração e o sentimento de igualdade entre os povos, sempre reinará a união sobre qualquer radicalismo e ignorância cultural.


Economista Wilson Carlos Fuáh – É Especialista em Recursos Humanos e Relações Sociais e Políticas.Fale com o Autor: wilsonfua@gmail.com