Almodóvar brinca com os limites da autoficção no lindo e delicado “Dor e Glória”

Reinaldo Glioche | 13/06/2019 07:05:13

Filme mais pessoal de um diretor que se notabilizou pela passionalidade em seus filmes, "Dor e Glória" chega aos cinemas brasileiros nesta quinta (13)

Se o cinema de Pedro Almodóvar é para os íntimos, “Dor e Glória” é a exacerbação dessa realidade. Ainda que seja um filme delicado, sensível e de rara beleza por si só, o longa provoca efeitos muito mais perenes e inflexivos em quem tem familiaridade com o cineasta e sua filmografia.

A metalinguagem, como de hábito, é um elemento vital para Almodóvar, que em “Dor e Glória” brinca com os limites da autoficção para contar a história de um cineasta que enxerga no seu passado a salvação de seu presente.

Salvador Mallo, que deu a Palma de melhor ator a Antonio Banderas no último festival de Cannes, está aposentado para a surpresa de uma atriz com quem cruza logo no início do filme. “Eu faço tudo o que me oferecem”, diz ela. Ele, no entanto, se diz disposto a retomar o contato com um ator com quem não fala há mais de 30 anos para que juntos apresentem o filme que os uniu e separou em uma retrospectiva na filmoteca.

Esse movimento de volta ao passado é uma constante para Salvador neste exato momento de sua vida. Ele passa a pensar mais em sua infância, em sua mãe, na educação católica que recebeu, em um grande amor do passado e tudo isso, aos poucos, vai devolvendo sua energia criativa.

A maneira como Almodóvar tece essa colcha de retalhos, no entanto, é simplesmente mesmerizante e profundamente afetiva. Dos devaneios de Salvador, que resolve descobrir tardiamente as drogas numa vaga tentativa de entender um ciclo específico de sua vida, à intensidade que afere a suas relações e criações, tudo é muito almodovariano no longa. Inclusive Banderas.

Há certa predisposição na caracterização, dos figurinos ao gestual, mas é na minuciosa composição do ator que se vê uma carta de amor a Almodóvar. Não se trata de uma imitação ou um decalque, como muitas vezes acontece nos filmes de Woody Allen, mas um gesto de um ator a seu diretor, uma declaração tácita de admiração e uma inversão nos signos dessa cumplicidade. Almodóvar deixa que Banderas o observe, o expresse, para que possa finalmente trabalhar um comentário sobre si.

Essa autoficção não autorizada resulta em um filme cheio de poros e inflexões valiosas. Almodóvar não é o primeiro cineasta a abordar suas angústias de maneira livre em um longa-metragem, mas é aquele que o faz de maneira mais galvanizada.

 “Dor e Glória” é um filme reconhecível para os fãs (as cores e as resoluções de tirar o fôlego estão lá), mas também é um impulso criativo de um artista que não tem medo de expor suas hesitações, falhas e inseguranças de maneira corajosa e até mesmo sedutora. É por tudo isso, um filme imperdível!

Nome Original: Dolor y Gloria

Gênero: Drama

Duração: 113 minutos

Classificação Etária: 16 anos

Direção: 

Roteiro: 

Elenco: , , ,  e 

Estreia: 13/06/2019

Fonte: IG Gente