LITERATURA

Professora escreve livro sobre princesa quilombola

Redação 24 Horas News / EBC | 21/06/2019 14:21:01

Para a monografia, em 2005, Sinara entrevistou meninas negras de 5 a 12 anos de escolas da rede pública

A procura por uma literatura infantojuvenil que tivesse referências na cultura negra para a filha Sara, de 3 anos, levou a professora Sinara Rúbia a criar a princesa Alafiá. A princesa Alafiá ganhou corpo durante a elaboração da monografia de Sinara no curso de letras, na Universidade Estácio de Sá (Unesa), em Petrópolis (RJ), virou conto e um livro que traz histórias da guerreira e quilombola imaginada em 2003, quando a professora se preocupava com a construção da identidade da filha, uma menina negra que crescia e precisava ter referências tanto em filmes, como nas bonecas e em narrativas.

“[Em 2003] foi quando eu me deparei com este tema, comecei a procurar personagens e referenciais dentro da literatura. Entendi a escassez e praticamente ausência de personagens negros com referenciais positivos e saudáveis. Quando tinha, eram sempre estereotipados e narrados de uma outra forma a partir do racismo”, disse à Agência Brasil.

Para a monografia, em 2005, Sinara entrevistou meninas negras de 5 a 12 anos de escolas da rede pública de Petrópolis e concluiu que a literatura infantil só com personagens brancos dos contos de fadas impactava a construção da identidade das crianças negras. Segundo a professora, com as entrevistas, ela percebeu que com essa ausência, somada a outros mecanismos de imagens como a televisão, as bonecas e os brinquedos, a literatura legitimava a presença desqualificada que contribuía no processo de branqueamento e negação negra.

“Quando perguntava para elas se pudessem mudar alguma coisa na personagem que mais gostavam ou preferiam, era perceptível que preferiam algo próximo ao biotipo físico delas. Havia a motivação para que elas se identificassem com as personagens, porém, para elas não as representava e contribuía para a negação dessa não condição de negro”, disse.

Hoje, Sinara administra cursos de contação de história negra e de literatura infantojuvenil. Ao longo dos anos, ela percebeu que era uma das poucas pessoas que fazia este tipo de trabalho, incluindo a aplicação da Lei 10.639, que trata da obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira nos estabelecimentos de ensino público e privado. “A literatura infantojuvenil vem crescendo, a gente vem tendo um número de pessoas interessadas nessas narrativas. Infelizmente ainda tem quem esteja mais voltado para o mercado e repete estereótipos, apesar de colocar a criança negra”.