Reconstrução dá o tom do MECAInhotim, quatro meses após tragédia em Brumadinho

iG Gente | 19/05/2019 21:35:05

Gilberto Gil, Duda Beat e Erasmo Carlos foram algumas atrações do evento

Logo na entrada de Brumadinho (MG), uma exposição de camisas e uniformes sujos de lama lembra que essa é uma cidade em luto. E que luta para se reerguer, cerca de quatro meses após a tragédia ambiental causada pelo rompimento da barragem da Vale.

Esse tom de reconstrução guiou os discursos dos artistas que se apresentaram na quinta edição (quase cancelada) do MECAInhotim, festival realizado entre sexta-feira e domingo, num palco montado em frente a uma instalação de Hélio Oiticica. Cerca de 10 mil passaram pelo museu ao longo dos três dias, com acesso liberado para as exposições. 

Protagonista do show mais aclamado do evento, a pernambucana radicada no Rio Duda Beat fez questão de pedir para o público “compartilhar com os amigos que estamos aqui e está tudo lindo”. Afinal, Inhotim, principal ponto turístico de Brumadinho, vem sofrendo com uma escassez de turistas desde a tragédia.

"Estar aqui hoje é um ato político. Que as pessoas responsáveis por esse crime se retratem", disse Duda, que botou o público para dançar com sua sofrência pop, e ainda contou com participação especial de Erasmo Carlos. Meio desajeitado, o Tremendão cantou os clássicos “Vem quente que eu estou fervendo”, “Festa de arromba” e “É preciso saber viver” com Duda, que chamou de “anjo”.

Atração principal do evento, Gilberto Gil fez um discurso sereno, pedindo para que “nossos sinais cardíacos e afeto cheguem a todos os afetados pela tragédia na região”. E agradeceu a todos que “fazem de Inhotim essa estrutura extraordinária tão importante para a comunidade”.

Com sua banda familiar, que conta com os filhos Bem (guitarra e direção), Nara (voz) e José (bateria), Gil fez um show musicalmente impecável, mas que não contou com engajamento à altura — parte por conta do repertório de poucos hits, centrado no recente álbum “OK OK OK”, e também pelo perfil do público, que parecia mais interessado nos DJs que viriam depois.

Céu (no sábado) e Pitty (na sexta) foram mais felizes ao centrarem seus repertório em sucessos recentes e do passado, mas optaram por discursos mais contidos. A baiana tocou até Raul Seixas (“Matemorfose ambulante”) e, no seu único discurso, celebrou aquela que era uma noite de “luta, alívio e resistência” .

Na sexta, a paulista MC Tha também bateu na tecla de que o parque precisa recuperar a frequência de turistas de outrora. Ela fez um show surpreendente, em que imprimiu um carisma natural à ponte que construiu entre funk, o candomblé e música popular. Sua voz doce, letras conscientes, violinos (a cargo da produtora Malka, a primeira artista trans a tocar na Sala São Paulo) e os tambores de terreiro levam o funk a um patamar particular, em que a imersão caminha ao lado do batidão.

O MECAInhotim contou ainda com shows de Castello Branco, Tulipa Ruiz e da banda local Lamparina e A Primavera. Além da programação do palco principal, outras estruturas, como o Art Stage, em que artistas visuais como Cranio e Ana Strumpf faziam diálogos entre projeções e sets de DJ, animaram o público do festival até 5h da manhã.

Fonte: IG Gente