Sem cair em clichês, “Fora de Série” é uma carta de amor adolescente

Gabriela Mendonça | 13/06/2019 06:35:09

Olivia Wilde faz uma bela estreia na direção ao homenagear adolescentes e abusar da comédia para fazer um dos filmes do gênero dessa geração

De vez em quando surge um filme que, por um motivo ou outro marca uma geração de adolescentes. “Clube dos Cinco” o fez ao unir diferentes jovens em uma detenção, “10 Coisas que Eu Odeio em Você” tinha uma protagonista fora dos padrões das comédias românticas adolescentes, e “Curtindo a Vida Adoidado” mostra o que qualquer jovem queria viver pelo menos por um dia.

Esses filmes fazem retratos adolescentes que, mesmo caindo no clichê eventualmente, tentam examinar esse grupo que, para quem já passou ou ainda não chegou nessa fase, parece indecifrável. “Fora de Série”, em diversos aspectos, poderia ser um desses filmes. Mas, a dedicação de Olivia Wilde em oferecer um olhar sincero, divertido e novo nesse grupo faz do longa ainda mais especial.

Molly (Beanie Feldstein) e Amy (Kaitlyn Denver) não são as típicas protagonistas de filmes do gênero, não porque são nerds – isso já foi explorado antes, mas porque seu foco não está em relacionamentos amorosos e sim na amizade.

Como qualquer adolescente, Molly e Amy têm muito a mostrar, a entender e a amadurecer. Amy “saiu do armário”, mas nunca esteve com uma menina. Molly se tornou a mais estudiosa da escola, e desprezou os colegas no caminho.

Elas são divertidas, mas ninguém sabe disso. Para evitar as pressões e julgamentos adolescentes, elas se esconderam nos livros e nunca mostraram nada além do estudo. Tudo isso para serem recompensadas com a entrada em ótimas universidades.

No último dia de aula, porém, elas descobrem que todos os jovens que viveram de festa e se submeteram a esses julgamentos também entraram em ótimas universidades. Com essa nova realidade escancarada, elas decidem fazer em uma noite o que não fizeram por toda a adolescência.

O que diferencia “Fora de Série” dos outros longas do gênero é justamente o equilíbrio perfeito de comédia com a vulnerabilidade a que elas se expõem para viver essa experiência. Molly tem uma fachada durona, mas não é imune aos julgamentos dos colegas, e Amy é tão introvertida que raramente consegue ver o mundo a não ser pelas lentes de Molly. Esses conflitos vão sendo expostos conforme a noite prospera entre altos e baixos, mas nunca sem perder o tom da comédia, ou as custas de comprometer a relação entre elas.

Não há disputas por garotos, nem disputas em geral. “Fora de Série” mostra que é possível fazer um filme sobre amigas sem que elas tentem silenciosamente superar a outra. Elas lidam com drogas (numa cena inspiradíssima com bonecas no lugar das meninas), corações partidos, sexo e a realidade de que a vida na escola acabou, com a intensidade de adolescentes e o humor de quem não tem nada a perder.

Tudo isso porque Olivia Wilde, além do amor por filmes adolescentes clássicos, não desdenha nem diminui os dramas e crises pelos quais as personagens passam. Ela respeita Amy e Molly e as trata, bem como os outros adolescentes sem ser condescendente ou superior. Uma das coisas mais comuns que se fala em relação a essa fase é que “ela passa”. Wilde rejeita esse conceito e oferece um filme que diz para os adolescentes: “essa fase pode até passar, mas enquanto ela está aqui, vamos fazer desses anos os melhores de nossas vidas”.

Um dos principais méritos do roteiro é evitar cair em narrativas que possam se tornar clichês, optando por, aos poucos, desvendar esses jovens, ou deixar claro que eles não são desvendáveis.

Os conflitos pessoais estão lá. O menino rico que acha que pode substituir afeição por dinheiro, a jovem que, ao explorar sua sexualidade, é imediatamente rotulada, a pessoa que usa características como honestidade para destilar maldade, e aquela que de certa forma é tão quebrada que torna quase impossível alguém se aproximar. E isso só com os coadjuvantes.

“Fora de Série” faz uma coisa que poucas comédias se dão ao trabalho: desenvolver os coadjuvantes. Embora tenham pouco tempo na tela, todos os personagens tem o seu “momento ao sol” e quebram os estereótipos, muitos deles confirmados pelo olhar de Molly. Billie Lourd é o principal destaque como Gigi, responsável por alguns dos momentos mais divertidos do longa, mas é impossível sair do cinema imune a pelo menos um personagem.

Alisson Jones é responsável pelo elenco inspirado. Com filmes como “Lady Bird”, “O Verão da Minha Vida” e a série “Freeks and Geeks” no currículo, ela sabia o que estava fazendo, dosando nomes menores, porém com certa afinidade do público como Skyler Gisondo e a própria Lourd, com novatos como Eduardo Franco e Mason Gooding (filho de Cuba Gooding Jr.).

Mas não são só os adolescentes que se destacam. Jessica Williams é muito bem aproveitada em todos os momentos em cena, Lisa Kudrow e Will Forte fazem uma ótima ponta, e Jason Sudeikis também agrada. Isso, claro, é mérito de Wilde, que criou um ambiente onde o elenco pudesse desenvolver essas relações.

Feldstein lidera o tom cômico do filme, mas com Denver protagonista as maiores risadas, como a impagável cena em que as duas decidem assistir pornô no carro para ajudar a “educar” Amy em suas relações amorosas. Sexo nunca é um tabu, nem como desejo e sexualidade, e esses temas são de forma orgânica.

Wilde faz pequenas referências a sua própria adolescência com uma música de Alanis Morissette e a trabalhos anteriores na estética, mas ela sabe que tem nas mãos uma narrativa que, se não é nova, merece um novo olhar.

Poderia ser uma brilhante estreia na direção, mas é tão somente uma brilhante direção. “Fora de Série” pode ser o filme dessa geração ou não, mas ele não é pretencioso a ponto de se apresentar dessa forma. Ainda assim, nessa nova safra de filmes que vem e vão no streaming, e de narrativas adolescentes, seu lugar merece destaque, se possível no topo. 

Nome original: Booksmart

País: EUA

Gênero: Comédia

Duração: 103 minutos

Classificação Etária: 16 anos

Direção: 

Roteiro:  e 

Elenco: , , , ,  e 

Fonte: IG Gente