Sem quebrar a roda, "Game of Thrones" conclui saga com retorno às origens

Gabriela Mendonça | 20/05/2019 10:35:30

Sem “quebrar a roda”, final condizente com temporada tem rei inesperado, e volta às origens do poder sem reinventar a história

Anos antes dos eventos do último episódio de “Game of Thrones”, em uma cena nunca mostrada, foi um homem, Petyr Baelish (Aindan Gillen), que decidiu o destino dos Sete Reinos, ao convencer Lysa Arryn (Kate Dickie) a matar o marido e mão do Rei Jon Arryn. O que se tinha em Westeros era uma sucessão de reis ruins, que deixaram o reino enfraquecido e suscetível aos planos de homens ambiciosos.

Foi assim que se desenhou a primeira temporada de “Game of Thrones”, com o surgimento de muitas pessoas dispostas a ocupar o posto de rei. Assim como Edmure Tully (Tobias Menzies) no episódio final, muitos acreditavam ter o direito de governar tantos povos. Tudo por que Mindinho era manipulador o suficiente para criar o caos.

Anos depois, com um país destruído e uma capital em chamas, foi outro homem que decidiu novamente o destino de Westeros. Tyrion (Peter Dinklage) é de fato o homem mais inteligente dos Sete Reinos, e usou sua inteligência para convencer um Jon Snow (Kit Harrington) destruído emocionalmente a acabar com a tirania que viria a seguir.

Foi o próprio Jon que lembrou o anão sobre dever versus amor, e como um anula o outro eventualmente (ironicamente, quem ensinou isso a Jon foi um Targaryen). E foi com essa justificativa que Tyrion o convenceu a matar Daenerys (Emilia Clarke).

Depois de todas batalhas, grandes e pequenas, coube a dois homens, numa sala, decidir o destino da rainha e de como Westeros seguiria dali em diante. Jon segue as palavras de Tyrion, mas ele não está certo sobre qual seu dever, e sim sobre quem ele ama. A decisão o destrói e, a partir dali, o que faz de Jon Snow um personagem heroico se vai para sempre.

Para desespero dos , porém, o final foi condizente com a temporada, o que não significa que não tenha sido problemático. Embora fosse possível que Bran (Isaac Hempstead-Wright) acabasse no trono, a decisão foi decepcionante, não só por que o jovem Stark perdeu qualquer habilidade de expressar sentimentos, mas por que conhecer o passado não significa mudar o futuro.

Bran é rei, mas não é ele que vemos ser coroado. Além de uma breve cena com seu pequeno conselho, ele volta para seu papel de sempre na temporada: irrelevância.  Vai ver é isso que a série queria mostrar desde o começo, que reis não tem função. Que o poder reside em um seleto grupo de pessoas que decidem o destino do povo, povo esse que, como ficou claro no final, é tão irrelevante como seu rei.

Daenerys, então, quebraria de fato esse longo ciclo de reis irrelevantes e, como ela mesma apontou, isso amedronta os outros. Para evitar isso, a maneira mais eficiente foi transformá-la em uma tirana a la Hitler e deixar seu destino na mão da única pessoa que não queria mata-la, mas o fez para “cumprir seu dever”. O resultado foi tão incerto que consumiu Jon, que pela segunda vez viu um amor morrer em suas mãos, e terminou exatamente como começou: no norte e sem família.

Depois de tantas especulações, maquinações e possibilidades, o grande segredo sobre ele ser um Targaryen não serviu propósito nenhum, e ele se tornou um regicida. De muitas formas, com a morte de Daenerys a tal roda não foi quebrada, e em muitos aspectos “Game of Thrones” terminou como começou.

O pequeno conselho permanece lá, a Patrulha também, mesmo que os Outros não existam mais e os Selvagens não sejam uma ameaça. A roda, como Daenerys previu, continua funcionando.

O Norte se separou e Sansa (Sophie Turner) teve seu justo final como rainha, longe de quaisquer crises que aconteçam em Porto Real – como era desejo de seu pai, Ned Stark (Sean Bean). Já Arya (Maisie Williams) aparentemente vai descobrir a América. Embora aleatório, é o único fim possível para a guerreira Stark; ela nunca se encaixou nesse mundo de disputas por poder e cumpriu seu destino assim que Cersei (Lena Headey) morreu.

Tyrion foi, no episódio final, o que ele não conseguiu ser a temporada inteira. Ele convence Jon de que matar Daenerys era a coisa certa, mas quando Jon o questiona depois do acontecido tudo o que ele consegue responder é: “me pergunte daqui há 10 anos”.  

“De boas intenções o inferno está cheio”, diz o ditado. Não sei se Tyrion o conhece, mas com certeza o define bem. Ele lembra os assassinatos cometidos por Daenerys no passado e os próprios. Por que ele (ou os criadores da série) decidiram que ele era digno de perdão e ela não, não saberemos.

No entanto, ele continua sendo o melhor personagem de “Game of Thrones”, e deixa claro que, no final, o que importa é o poder, independente de quem o tem nas mãos.

Fonte: IG Gente