Falhas de brasileiros na balança refletem ausência de cultura esportiva no país

iG Esporte | 11/06/2019 08:35:28

Recorrência com que lutadores brasileiros fracassam ao cortar o peso não deve ser encarada como mera falta de profissionalismo

Duas semanas atrás, dois lutadores brasileiros – Alexandre 'Popó' e Alexandre 'Capitão' – estouraram o peso no segundo evento da temporada do Professional Fighters League (PFL) e foram excluídos do card. Na última quarta-feira, pela mesma organização, Ronny Markes também não bateu o peso, venceu a luta, mas não ganhou os pontos do campeonato – que acontece no estilo das ligas americanas, com fase regular e mata-mata. No Invicta, show exclusivo de mulheres, Viviane 'Sucuri' também excedeu o limite de sua categoria, o peso-átomo (48 kg).

Apenas para tornar esta lista de brasileiros longa o suficiente para que você perceba que não estou querendo apenas ser detalhista, como também insistente, o último atleta a não bater o peso no UFC também é do Brasil: Bethe Correia, no evento de número 237, realizado no Rio de Janeiro, no início do mês. Alguns dos episódios mais marcantes de erros no corte de peso também são desorgulhosamente nossos – é só lembrar de Renan Barão desmaiando no dia de subir na balança para enfrentar TJ Dillashaw, em 2014.

A recorrência com que lutadores brasileiros fracassam ao cortar o peso não deve ser encarada como mera falta de profissionalismo – embora também seja, na maioria dos casos. A enorme quantidade de falhas reflete a ausência de uma cultura esportiva no país. Explico: nos Estados Unidos, nação que é soberana no MMA, grande parte dos atletas têm origem no wrestling colegial e universitário. As competições da luta olímpica são muito bem organizadas, com torneios acompanhados pelo país todo e, na NCAA, elite do esporte entre as universidades, com transmissão da ESPN!

Na modalidade, praticada por tantos dos lutadores de MMA desde a infância, o corte de peso é uma rotina. Dolorosa e desgastante, é fato, mas uma rotina. Assim, tendo o processo de desidratação como costume, fica bem mais fácil conduzir-se fisicamente para um confronto. E isso, sem qualquer dúvida, influencia no resultado final de uma luta, ainda que não seja determinante. Mas não é só uma questão fisiológica: não faltam casos de atletas que relataram ter 'quebrado' mentalmente depois de uma semana de deterioração do próprio corpo.

No Brasil, muitos dos atletas de MMA nascem 'na raça'. Alguns deles chegam a ser descobertos em brigas de rua e não tinham qualquer contato com artes marciais até serem pinçados por um lutador ou treinador profissional. Em um país com sérios problemas de desigualdade, não é difícil mensurar quanto uma alimentação incorreta — não necessariamente pouca – e a ausência de um acompanhamento nutricional podem atrapalhar no processo de formação de um lutador. E tudo isso 'aparece' no alto nível, no UFC ou nas outras grandes organizações do mundo.

Aqui, mesmo entre os lutadores que têm bagagem esportiva, o hábito é inverso: no jiu-jitsu, modalidade que tem DNA brasileiro, o mais comum é que atletas ganhem peso para disputar competições. Afinal, a força isométrica – essencial na luta de solo — perderia intensidade depois de uma desidratação intensa.

Assim, muitos deles só passam a cortar peso quando estreiam no MMA, o que evidentemente traz riscos e gera um déficit físico e, por que não, técnico – já que estar bem é essencial para desempenhar de maneira correta aquilo que se treina e pratica na academia. Para piorar, até hoje métodos sem comprovação científica – ou pior, com reprovação científica – são usados por lutadores brasileiros no pouco saudável processo de retirar água do corpo.

Para além do folclore, o excesso de brasileiros não batendo o peso é uma falha estrutural. A quase ausência de eventos respeitáveis de MMA no Brasil, até pela questão econômica do país, não é algo que ajuda a resolver este problema. Ou dar a ele alguma perspectiva de solução.