Radialistas discriminam jogadoras da Nigéria e geram revolta de ouvintes; ouça!

iG Esporte | 17/06/2019 13:05:54

Anúncio de gol na Copa do Mundo feminina abriu espaço para comentários comparando jogadoras nigerianas com as do Canadá e Nova Zelândia: "Brincadeira interna"; ouça no player abaixo

Durante a transmissão do jogo Central-PE e Jacuipense-BA, pela Série D do campeonato brasileiro, no último sábado (15), ao menos três radialistas esportivos da Rádio Jornal, em Pernambuco, protagonizaram uma sequência de comentários considerados machistas e racistas por ouvintes, que expuseram a situação nas redes sociais. O veículo é um dos mais antigos do país ainda em operação e é referência na cobertura esportiva no Nordeste.

No meio da partida, o plantonista Marcelo Araújo entrou no ar logo após o anúncio do gol da seleção canadense pela Copa do Mundo de Futebol Feminino, em cima das neozelandesas. Ancorando a transmissão, o narrador Iran Carvalho diz que alguém da cabine teria interesse em ser massagista (dos times em campo); ao que Araújo responde dizendo que há vaga, mas para a seleção da Nigéria. O locutor pergunta se um colega aceitaria a vaga e, entre risos, a voz de um homem ainda não identificado pela reportagem, diz: "Pois é. Falou 'Canadá', 'Nova Zelândia', todo mundo quis, né?".

Ouça o áudio na íntegra:(Cópia de clipagem via radiomonitoramento)

Confira a transcrição do diálogo completo:

O relato do jornalista Daniel Leal, descrevendo o caso nas redes sociais logo após o diálogo ir ao ar, lançou luz sobre o caso: "Sinceramente, é inadmissível ouvir algo desse tipo atualmente ainda. Uma vergonha. Em meio a tanta luta por igualdade, por respeito, ouvir um absurdo desse. Vergonha!".

Outros ouvintes publicaram relatos sobre o mesmo assunto, na noite desta sábado. "Machista, racista, homofóbico, xenófobo... a lista de preconceitos é grande. Ainda bem que outras pessoas ouviram e tiveram a mesma reação que eu tive", disparou João Pedro Pereira. "Que coisa absurda. Inadmissível", disse Fabiana Constantino. "Fiquei indignado com essa postura", comentou Guilerme Prudente, enquanto o usuário identificado por DuduDeMelo resumiu com "eu ouvi na hora e fiquei sem acreditar".

Diante da repercussão, o plantonista envolvido no caso chegou a comentar a questão, alegando que a conversa não foi compreendida perfeitamente. Marcelo Araújo se apresenta como apresentador, professor de filosofia, sociologia, pacifista, espírita e apartidário. Sobre o caso, apenas alegou: "O contexto é outro. Uma brincadeira interna".

A reportagem procurou a Rádio Jornal, mas os envolvidos e a chefia não quiseram se pronunciar. Uma nota oficial deve ser emitida pelo departamento jurídico e editoria de esportes ainda nesta segunda-feira.

Falando de futebol

Localizada na África Ocidental, a Nigéria tem uma seleção de futebol feminino considerada a melhor do continente. As "Super Falcões", como são conhecidas, são um grupo de mulheres negras cuja melhor colocação foi um 7º lugar na Copa do Mundo de Futebol Feminino de 1999.

Mais diversas, as seleções de Canadá e Nova Zelândia tem maioria branca entre suas jogadoras e uma parte significativa de jogadoras negras ou de origem maori, descendência típica do novíssimo mundo. Ambos os grupos são de países com realidades étnicas e socioeconômicas completamente distintas das nações africanas. No caso do Canadá, a equipe já chegou a ficar em 4º lugar, em 2003. A Nova Zelândia ainda não se classificou.

A rádio

A Rádio Jornal foi fundada em 1948 e opera nas frequências 780AM e 90,3FM. Ela faz parte de um dos mais fortes grupos de comunicação do Nordeste, o Sistema Jornal do Commercio de Comunicação. A emissora é conhecida não apenas por coberturas esportivas, mas por prestação de serviços e por um caráter humanitário, que inclusive chegou a rendê-la múltiplas vezes o Prêmio de Anistia e Direitos Humanos Vladmir Herzog de Jornalismo, o maior e mais respeitado prêmio do gênero ainda em operação no Brasil.

Ironicamente, o principal nome do jornalismo do SJCC é o de Graça Araújo, falecida no ano de 2018. Negra, fez história na comunicação, assumindo horários nobres locais não apenas no rádio, mas na TV, por mais de duas décadas. Atlética, era entusiasta do esporte e defensora da igualdade entre homens e mulheres, recorrentes vezes denunciando desmandos do poder público e das questões de discriminação por raça ou religião.