FONTE VIDA

Moradora do D. Aquino mantém nascente dentro do quarto

Conheça a incrível história da diarista Marisa Pereira da Costa e sua fonte de água "azul"

Redação 24 Horas News/O Livre | 07/08/2017 21:17:09
Fotos: Rodrigo Vargas

Sem chuvas há 90 dias. Umidade abaixo de 20%, semelhante à de um deserto. Nas lojas de departamento, pilhas de umidificadores de todos os preços e modelos a dominar as prateleiras.

Por todos os cantos de Cuiabá, a natural secura dos meses de julho a setembro é enfrentada pelos moradores com resignação e improviso: panos molhados nas janelas, garrafas PET e baldes cheios d'água pelos corredores.

Em ao menos um endereço da cidade, porém, nenhum paliativo é necessário. Na casa de número 168 da rua Pimenta Bueno, no bairro Dom Aquino, a família da diarista Marisa Pereira da Costa dorme e acorda ao redor de uma fonte natural de água corrente e cristalina.

Uma nascente, de onde brotam mais de 70 mil litros de água todos os dias e que fica bem no meio do quarto, cercada por camas de solteiro e de casal, e protegida por um deck de madeira.

"A gente dorme ouvindo o barulhinho da água a correr", diz a sorridente e espevitada Marisa, 61 anos de vida, sendo os últimos doze pertinho do que chama de "belezura". "Essa fonte aqui é um privilégio".

A água que nasce dentro do quarto é tão abundante que os cinco integrantes da família não conseguem sozinhos dar conta do fluxo. O excedente escorre por um cano que leva a uma pequena bica de pedra no lado de fora, rente à calçada.

Logo acima, na parede da casa, uma placa de madeira informa se tratar da "Fonte Azul". Marisa explica: "De manhãzinha, se você usar uma garrafa bem transparente, vai notar um azuladinho", relata.

Moradores de vários lugares da cidade, conta ela, procuram a fonte em busca de suas supostas propriedades medicinais. Ela garante que o líquido é "poderoso", capaz de curar gastrite e fortalecer a pele e os cabelos. "É melhor que xampu Seda", diz.

No quarto, a temperatura é naturalmente amena. E a umidade não é excessiva, segundo ela. "Não temos problema com mofo. É tudo sequinho e asseado", afirma.

Coletada por intermédio de uma bomba elétrica e, às vezes, uma chaleira, a água da fonte azul serve para tudo na casa de Marisa: do banho à cozinha. A concessionária municipal de água, segundo ela, passa longe dali.

"Enquanto estiver aqui, a única água que iremos usar será essa. Não adianta vir com história de CAB para o meu lado. Aqui não precisa", brada.

A economia com a água é providencial. Com três filhos atualmente desempregados e contando apenas com uma modesta aposentadoria do marido, Marisa se vira como diarista e produz artesanato para fechar as contas do mês. Nem sempre é o suficiente.

Fã declarada de livros, tem em casa uma pequena biblioteca que reuniu a partir de doações e também de volumes que encontrou jogados no lixo. "Eu recolho, limpo e guardo aqui porque eu gosto e a gente sempre precisa", sorri. "Já sonhei que montava uma biblioteca para os idosos aqui do bairro."

Os sonhos da diarista, ultimamente, têm ficado em suspenso. A casa pertence a um primo que hoje mora em São Paulo. Vivendo de favor no local, ela conta que recentemente recebeu do parente a notícia de que terá em breve que desocupar o imóvel.

"A casa não é minha, então tenho que desocupar mesmo. Tá certo. Mas vou sentir muita falta da minha água".

(Reportagem de Rodrigo Vargas / O Livre)


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